sábado, 10 de julho de 2010

À Gisberta




Bem, numa ronda na internet soube de um fato que poucos conhecem, mas que agora quero fazer parte daqueles que expõem isso ao mundo: a morte de uma travesti brasileira. Sei que acabei de postar um texto sobre isso, mas é que não poderia deixá-los de apresentar Gisberta.

Gisberta foi uma travesti nascida em São Paulo que fora cheio de sonhos para as terras lusitanas ganhar e perder a vida. Fora conhecida como uma das damas da noite e acabou-se nas trevas de um terror que poucos podem imaginar. Agonizou, sofreu, mínguo por mais de 48 horas antes de partir. Soropositiva, hepática, doente, sensível, mulher. Gisberta acabou morta numa vala malcheirosa deferente dos perfumes excepcionais aos quais outrora usava. Os assassinos foram 14, um a mais que o número cabalístico, 13. As idades há época 16, a vergonha na cara, zero; o respeito, zero; a consciência, zero.

A soma dos fatores deu-se na brutalidade: ela fora espancada por vários dias, em vários lugares, sentiu dores em pedaços da alma que já havia perdido. E mesmo só após cinco anos de sua morte, sem mesmo tê-la visto, eu a amo. Pela verdade que fora, num mundo cheio de mentiras. Fazia ponto na Rua Santa Cantarina, e porque não se dizer que jaz uma santa, Santa Gisberta.
Leiam! De modo imperativo mesmo, precisam ouvir essa música, precisam ler esses versos. Tornar-se um pouco mais humano meio as bestialidades que podemos causar.



Balada de Gisberta

Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.
E o amor é tão longe,
O amor é tão longe… (…)
E a dor é tão perto.

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