segunda-feira, 28 de junho de 2010

Num mundo nada cor de rosa



“Lá não tem brisa. Não têm verde-azuis. Não tem frescura nem atrevimento lá. Não figura no mapa...” é assim que o compositor, cantor e escritor Chico Buarque exprime de forma poética a dura realidade do subúrbio. Outra penosa realidade é a dos homossexuais brasileiros. Que não mudou muito desde as ultimas décadas até hoje, pode-se se dizer, talvez, que tenha piorado.

A euforia dos “novos tempos”, do advento da forma moderna de pensar do século XXI ainda soa como hipocrisia se percebemos que a questão da homossexualidade ainda se encontra paralisada no processo social de aceitação e reconhecimento dos mesmos.

O Brasil tem a maior parada gay do mundo, a de São Paulo, que neste ano de 2010 teve, de acordo com seus organizadores 3,5 milhões de pessoas. Mas também temos outro vergonhoso recorde, o de ser o país mais homofóbico do mundo. De acordo com um levantamento do Grupo Gay Bahia o Brasil é considerado a nação com maior número de homicídios por motivos sexuais do planeta. Segundo do Grupo em 2009 foram assassinados 198 homossexuais, nove a mais do que em 2008 (189 mortos), um aumento de 61% em relação a 2007 (122 mortes). Dentre os mortos 59% (177) eram gays, 37% (72) travestis e 4%(9) lésbicas. E a maioria dos crimes ainda são caracterizados por grandes resquícios de crueldade como tortura, dezenas de facadas ou tiros.

Nos dois primeiros meses de 2010, como foi divulgado no blog do advogado e membro da Associação Brasileira de Gays e conselheiro do Grupo Arco-íris (RJ) Carlos Alex de Lima, foram mortos 34 homossexuais. E os estados que mais homofóbicos são o da Bahia e do Paraná com 25 homicídios cada um.

Esses dados deixam o Brasil à frente de países com México (2º lugar) com 35 mortes e Estados Unidos (3º lugar) com 25 mortes. Aqui é morto um homossexual a cada dois dias. Isto sem contar os crimes que nem são computados ou não ganham conhecimento da polícia. Números que nos fazem refletir também: a quantidade de homicídios nesses três países é superior a de um dois oito países que tem para atos homossexuais a pena de morte. Que são: Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Mauritânia, Sudão, Iêmen e alguns Estados do norte da Nigéria.

Grande parte dos crimes realizados aqui são cometidos nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo. É nesses dois lugares onde há uma maior militância gay do país. E dessas metrópoles há também uma das maiores diferenciações do tratamento que o homossexual ganha. “Os gays das novelas que passam nas novelas do Manoel Carlos são do Leblon, andam de carro, de terno e gravata e nem se beijam, por isso são aceitos” como cita o jovem de 22 anos Cristiano Matarazzo de Duque de Caxias. Que ainda não é assumido, pois espera ter a independência financeira antes de ter um relacionamento e expor-se à sociedade. Hoje ele está desempregado, mas almeja ser um publicitário.

A mesma visão que o jovem Cristiano tem vários outros adolescentes do subúrbio ou do interior possuem. Que a forma “romantizada” do gay está mesmo só na utopia.

“Eu sou Charles de Melo e estou aqui para recrutar vocês...”

“No avesso da montanha é labirinto, é contra-senha, é cara tapa...”.

Um futuro filosofo, um amante de Foucault, um jovem que parece um moleque: franzino e magro. Mas quando expõe o que pensa, mostra-se bem mais velho do que seus 19 anos. Este é Charles Antônio de Melo que brinca “morar no interior do interior do Rio de Janeiro”. Na verdade ele reside em Mauá, distrito pacato do municio de Magé. Jovem, gay, pobre e morador do interior, tudo para ser uma pessoa frágil como um cristal, se não tivesse a força de uma pedra.

Repórter - Charles, como lida com a relação paradoxal ao qual a sociedade trata os homossexuais brasileiros, a questão do, o gay do subúrbio e o gay da zona sul?

Charles: O gay da Zona Sul vive em um ambiente onde o preconceito é menos expressado. Não que haja menos, entenda bem. Ele apenas é menos expresso. Esse ambiente que me refiro são lugares freqüentados por pessoas de poder aquisitivo mais alto, que segurem um padrão de vida que leva permite maior liberdade, onde serviços funcionam. Veja bem, um homossexual morador da baixada não andará de mãos dadas no calçadão de Magé, como anda o gay de Ipanema. Sabe-se que ali o tratamento é diferente. Não digo só a gays, mas a todo o resto da população.

Repórter - Menos expressado ou menor pelas pessoas terem maior nível cultural?

Charles: Menos expressado. As pessoas com maior poder aquisitivo, que, portanto teriam acesso mais facilitado ao conhecimento, nem por isso são de regra menos preconceituosas. Apenas expressam de maneira diferente seu preconceito. Seria feio, na sociedade delas, recriminar um gay; e não propriamente respeitá-lo. Quando maior conhecimento, maior probabilidade de se aceitar a relação homo afetiva. No entanto, isso não é garantia.


Repórter - O fator econômico interfere na aceitação social do gay?

Charles: O problema é amplo, não se restringe aos gays, volto a repetir. A sociedade respeita quem economicamente é superior, e isso se dá na sua forma de falar, vestir etc. Uma vez que você tem a imagem de alguém que possui dinheiro, será mais respeitado. E isso independe do que se busca como respeito. Obviamente, ter dinheiro e freqüentar ambientes polidos, com seguranças e antenados como o mundo europeu que lhe garante uma maior aceitação da sociedade. No âmbito familiar, talvez os problemas sejam os mesmos da família de classe baixa. No entanto , por questão cultural, as famílias de classe mais alto não divulgam seus problemas, como na família de classe baixa onde é hábito discutir problemas com vizinhos etc. Como disse uma mãe, a escritora Edith Modesto “Muitas vezes quando o homossexual saí do armário, a mãe – no caso a família – entra.”.

Repórter - Em relação familiar como foi seu caso?

Charles: Foi conturbado, por demais complicado. Eu sempre tive que ter o cuidado pra não ser descoberto, o que me causou problemas e causa até hoje. Aos 19 anos contei efetivamente que era homossexual, e fui aceito por todos os meus familiares. Mas anterior a isso, quando dava pistas da minha condição, enfrentei inúmeras brigas com meus pais. O maior problema foi a escola, no meu caso.

Repórter - E quais problemas você teve que enfrentar na escola?

Charles: Você vive numa eterna vigilância. As pessoas no ambiente escolar não podem perceber. Até que surjam dúvidas, brincadeiras e ataques. E da defesa desses ataques pode vir a afirmação da sua homossexualidade. Ouvi vários comentários ofensivos e ao me defender acabei sendo posto na berlinda. Minha mãe foi chamada à escola e explicaram o motivo: “seu filho é hostilizado de gay”. A escola não está preparada para lidar com o diferente. Não somos acostumados. Tanto alunos, quanto professores e a direção. Saímos de lá com um diploma na mão, mas analfabetos em respeito em diversos aspectos.

Repórter - Seus vizinhos, que são de classe inferior, e assim como você, não vivem no mundo restrito dos cartões postais, como você vê a relação deles com você, o fato de você ser um homossexual assumido?

Charles: Por serem de uma realidade mais próxima, onde todos se conhecem e sabem dos hábitos uns dos outros. Ou seja, por terem laços mais fortes e uma presença maior do caráter moral etc., tendem a não aceitar, rotular em estereótipos etc.

Repórter – E por falar em estereótipos. Há uma “categoria” de gays que são mais afeminados, caricaturados que os próprios gays chamam de “bicha pão-com-ovo”, são homossexuais pobres que exacerbam e acabam sendo os que mais sofrem preconceito. Qual sua opinião sobre eles?

Charles: É uma situação delicada. É o outro lado do preconceito, quando se diz que não se tem preconceito. Aceitar o homossexual, mas desde que ele se enquadre na postura heterossexual. Ou seja: pode ser gay, mas não pode parecer gay. Isso é difundido, aceito e seguido por muitos gays. O que gera preconceitos dentro do próprio movimento. Eu particularmente não vejo nada contra. Obvio, se me desrespeitar, desrespeitar meu espaço haverá problemas. Mas isso é independente da orientação sexual. Afinal, não se pode ver o homossexual como homogêneo. São pessoas que gostam do mesmo sexo, mas podem ser masculinizadas ou não, vestidas de homem ou de mulher etc, e etc. São os chamados gêneros e tantas outras definições. Como todo grupo tão diversificado, tem-se preconceito dentro dele mesmo. Um homossexual muito afeminado provavelmente será mal visto pelos gays do próprio movimento.

Repórter – Mas essa “segregação” dos gays não é ruim para o movimento num todo?

Charles: A Segregação é delicada, pois coloca o gay em guetos. Mas lhe traz segurança. É uma defesa contra aquilo que o Estado não garante: segurança, liberdade de expressão. As paradas gays trazem visibilidade pro movimento. Seu potencial é maravilhoso, mas, infelizmente, há uma distancia muito grande em potencial e realização. A parada, pra mim, perdeu seu foco. Virou carnaval fora de época. Visto o projeto não homofobia, que pretendia mais de 40 mil assinaturas na parada gay do Rio em 2008 - com 1.5 milhão de pessoas - e hoje só tem, ainda, menos de 100 mil.
Hoje temos 3.5 milhão de pessoas em São Paulo, mas ainda não conseguimos um milhão de assinaturas pra forçar a provação de um projeto tão importante.
Isso, infelizmente, é característica dos movimentos políticos de hoje. Não só a parada gay, mas outros movimentos terminam em festas. O peculiar é que a parada gay, ou melhor, o gay, já é associado à promiscuidade anterior a qualquer festividade ou ato político.

Repórter - E para o futuro, o que você espera ver e vivenciar daqui a 20 ou 30 anos?

Charles: Uma sociedade que já tenha garantido nossos direitos. Mas uma população que ainda, mesmo com as leis, ainda terá muito a aprender sobre o significado de respeito. Sei que pode parecer muito esperançoso, mas como citou o grande líder e militante dos direitos civis dos homossexuais, Harvey Milk – que tinha como principal bordão “Eu sou Harvey Milk e estou aqui para recrutar vocês...”: "Não se vive apenas de esperança, mas sem esperança não vale a pena viver".

“É você que ama o passado e que não vê. Que o novo sempre vem...”.

É a citar “Como nossos pais”, interpretada por Elis Regina que vamos adentrar no mundo de outro jovem do interior do Rio, Rômulo Fausto, 22 anos, morador de Três Rios. Este é negro, alto e sonhador. Escreve em seu blog “Extraordinário” onde se expõe ao mundo tão poeticamente, numa tentativa de embelezar uma vida que nem sempre tão bela quanto um texto seu.

Economia -
Na questão econômica da aceitação, Rômulo acredita que: “Existe sim,lógico. Mas hoje isso é muito tranqüilo que as pessoas se permitam mais. O grande paradoxo que existe hoje não em relação a classe econômica e sim com relação a conduta de vida das pessoas. Sinceramente o que existe é o seguinte: Você morando no subúrbio irá conviver com pessoas na maioria das vezes menos instruídas e com mais preconceito. Mas se você mora na zona sul as pessoas normalmente tem uma cabeça mais aberta.

O dinheiro facilita a vida de mundo de todo. Veja bem caso do Bruno Chateaubriand e do rapaz com ele vive. Eles são um casal muito bem aceito e todo mundo “paparica”. O dinheiro te dá uma independência de ser o que você quiser sem tem que dar satisfações a ninguém.

Lógico que o nível de conhecimento, o nível de estudo da pessoa ajuda,mas existe um fator determinante nessa questão: o que os pais sonham para seus filhos e nessa hora você ser até mesmo um literato,mas o preconceito vem à tona. Com a minha mãe nunca houve. Ela sempre adorou gays e sempre teve muitos amigos. Veja,ela não era uma pessoa de cultura elevada,mas por sorte minha sempre teve muita cabeça aberta. Eu é que sempre fui muito grilado. Mas o restante da minha família me vê de longe com relação ao fato da minha homossexualidade. Sabem de mim,mas simplesmente não interferem em nada. Fingem que não sabem de nada.

Paradas Gays –

Vou falar primeiro com relação ao respeito. E a resposta é mudar a postura,eu insisto nessa tecla. Vamos estudar! Vamos nos formar e atuar! Lutar de verdade e não ficar fazendo festas que só aumentam a imagem distorcida que as pessoas têm de nós. Não se submeta nunca aos nichos reservados para nós. Vamos evoluir e mostrar nosso valor. Agindo naturalmente. Entretanto, o preconceito é uma doença terrível e que está muito entranhada nas pessoas.

Eu adoro a parada gay por ser uma celebração, mas detesto a Parada Gay por vender uma falsa imagem de "luta por direitos políticos”. Acho ridículo isso. Aquilo nada mais é do que um carnaval fora de época e nada mais. Não é assim que conseguiremos alguma coisa. Um monte de drags, travestis “dando pinta” e monte de “bofes” sarados seminus dançando irá fazer algum político aprovar o casamento gay ou adoção de crianças por casais homoafetivos? Lógico que não! Muito pelo contrario, porque com isso seremos sempre o estereotipo de "coloridos”, “divertidos" e “alegres" que valoriza somente isso e nada mais. E cadê a responsabilidade social de cada um? Eu não sei onde eles colocam nessa festa ótima, dançante e lucrativa. Só isso.

Futuro –
Hoje em dia é ainda não é “normal, mas grandes centros urbanos as pessoas já sabem que nós existimos, só falta existir também o respeito. Certo dia fui em uma balada gay em Juiz de Fora, Minas Gerais e o que você vê nas ruas jovens demonstrando sem pudor sua sexualidade. Acho que isso se deve muito a Internet, porque com ela podemos encontrar outros de nós que moram ali do lado, mas que no contato superficial do dia acabamos não nos permitindo um contato mais profundo. Os jovens gays hoje andam sempre com outros jovens gays e isso dá a ele uma força enorme de ser o que ele de verdade é. Só acho que estão ficando alienados demais como se tudo estivesse resolvido e não está. As pessoas não ligam pra lutar de verdade por direito algum. Beijar na boca em praça pública ao lado dos amigos para eles já é o bastante.

"É você, que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem...". Tenho certeza de que a união civil, a adoção, os direitos civis dos gays não irão demorar muito. São coisas que já existem no nosso dia-a-dia. Casais gays existem aos montes e adoção já está evoluída. Felizmente existe uma pressão por meio dos veículos de comunicação e seus formadores de opinião a favor dessas conquistas. “A união faz a força” frase clichê, mas verdadeira.


“As pessoas são quem são. Ou são o que elas têm?”

O fato de um gay viver num lugar mais propício a violência contra eles pode desencadear uma serie de atitudes. Algumas positivas à sua formação pessoal, mas na maioria das vezes o estresse causado pela preocupação de sofrer algum tipo de violência, seja ela na família ou na sociedade em geral, pode criar diversos problemas psicológicos.

Segundo a psicóloga Vânia Costa, nos lugares mais pobres, como a Baixada Fluminense, as zonas rurais, “há é claro uma dificuldade de se assumir. Tanto internamente, ou seja, para o próprio homossexual se reconhecer gay, tanto para a sociedade, ter um relacionamento, expressar socialmente sua condição sexual. E também pode acontecer a versão contrária. O fato incomum, mas comum nos gays que pode acontecer de uma pessoa buscar na forma caricaturada, com trejeitos exagerados, para de certa forma afrontar e ser aceito na sociedade. Sendo aquilo que por essência ele não é, uma pessoa cheia de maneirismos desnecessários, isto é o que pode acontecer por viver num lugar onde ser gay é ser hostilizado.”

Não há no Brasil uma estatística que aponte, mas que nos Estados Unidos, já é feito um levantamento sobre o número de suicido entre os homossexuais na adolescência. Segundo o Departamento de Saúde norte-americano os jovens gays são seis vezes mais propícios a cometer suicídio que os heterossexuais. E 40% têm ligações com crenças religiosas. Sobre os dados, a doutora Vânia alerta: “Devemos tomar cuidados com essas pesquisas. Com as formas que foram feitas, metodologia, etc. Porque assim também foram feitas pesquisas que apontam que o negro é menos inteligente que o branco, enfim... Acredito que isso dependa muito do meio em que esse homossexual viva. O lugar pode fazer com que ele se tranque, se trancando, não há uma realização. Ela não se dá o direito de experimentar a sexualidade. O que pode levar a falta de harmonia interna. A totalidade do ponto humano. Se você não é “isso”, totalmente masculinizado ou feminilizada essa sociedade faz com que essa pessoa seja mais suscetível no mínimo a ser mais infeliz.

Ficar “no armário”, como é utilizado para denotar o homossexual que fica “incubado”, esconde sua natureza da sociedade, também pode trazer problemas. A psiquiatra diz que: a negação como disse Freud é um mecanismo de defesa. No caso do homossexual, o que nega é aquele ao qual nem se permite pensar em ser gay, nem se dá conta de que “aquilo” existe. Quando vive uma vida dupla, ele se realiza de uma forma, mascarada, misteriosa, mas socialmente ele vive como um “normal”. Agora, quando ele está no armário, ele já tem a consciência de que é gay, de que isso não é mutável e se frustra. Porque renega uma necessidade que muitas vezes sim, pode culminar no suicídio.
Quando o homossexual está “no armário” ele pode criar outro mecanismo mais perigoso, o preconceito, a repulsa. Existe um filme chamado “Beleza Americana” do diretor Sam Mendes que retrata muitíssimo bem esse quadro que você expôs acima, a questão do “se eu não posso ninguém pode”. Este é o pensamento. Eu odeio no outro porque eu não sou forte o suficiente para assumir quem sou, ou muitos motivos. Mas o repudio também pode vir da religião, se a pessoa tem que lutar contra o argumento de autoridade que diz que não, ou seja, se eu sou homossexual e um deus supremo, todo-poderoso, invisível diz que não, que é errado, pecado, e mesmo assim me desenvolvo para outro pólo se não o “normal”, eu fico mais frustrado ainda. E aqui no Brasil, fazemos pose de povo moderno, mas ainda temos um pensamento muito arcaico.

E finalizando a análise psicológica dos problemas que ser gay de lugares mais pobres, a doutora Vânia Costa ainda exprimiu sua opinião, dando um exemplo conhecido do “Bruno Chateaubriand, que todo mundo fica “ah... Que casal bonito”, o que é desnecessário, porque muita das vezes, nem mesmo um casal hétero é privilegiado com essas demonstrações de aceitação social de uma existência do “casal”. Os gays da zona sul são mais facilmente aceitos que a bichinha do subúrbio. Que será rotulado pelos vizinhos, pela sociedade, pela escola, muitas vezes até pelos próprios familiares. O fato é que toda minoria quando ela atingi um patamar econômico ela vai ser aceita. Nem que não seja apreciada. Mas é visto como algo deselegante não aceitarmos, mas apreciação é outra coisa. O gay “deixa” de ser gay, o negro “deixa” de ser negro e tornam-se pessoas com dinheiro.”.

Toda a sociedade deve parar e analisar os conceitos muitas vezes esdrúxulos que temos. O ser tornou-se menos importantes do que o ser. O escritor Pedro Bandeira escreveu há tempo um texto infantil que grande parte das pessoas parece desconhecer, parte desse texto diz: “As pessoas são quem são. Ou são o que elas têm?”.

“Lá não tem moças douradas. Expostas, andam nuas. Pelas quebradas teus exus. Não tem turistas. Não sai foto nas revistas. Lá tem Jesus. E está de costas”

A grande parte da sociedade brasileira não aceita tão bem a homossexualidade como está sendo vinculada por grande parte da mídia. Essa “mascara” posta por algumas pessoas é feia. Se pensarmos que na questão da sexualidade, sobretudo, no nosso país, é mascarada, é tabu. O mesmo povo que faz o carnaval, as maiores Paradas Gays do mundo, aquele que sabe de cor fazer uma boa festa, ainda tem entranhado dentro de si o arcaico, o religioso, o pudor, coisas paradoxais que parecem, mas somente parecem conviver bem.

Para Ronaldo Silva dos Santos, de 19 anos, morador de São João de Meriti, orientador profissional. Muita coisa ainda deve ser repensada no Brasil. E muitas lutas o homossexual deve travar com a sociedade para ser bem aceito. Ele diz que quando era criança, estava passando por uma rua e tinham várias pessoas na rua e quando passou fui hostilizados por todos. Foi como um corredor polonês. Algo para o jovem, inesquecível. Ronaldo espera que esse tipo de fenômeno nunca mais aconteçam com ele, ou com qualquer outro gay.

“La vie em rose”, que muitos pensam que todo o gay da cidade grande vive não é verdade. O tratamento do gay da Zona Sul, do Morumbi, das áreas mais ricas é um, onde eles são considerados “quase-normais”, “normais” ou “exóticos”. Por vezes são hostilizados. Mas onde existe o fator econômico que os protege, e é este fator é o poder na sociedade capitalista a qual vivemos.

“Tem que ser muito macho para se assumir gay na Baixada”, volta a dizer o futuro publicitário Cristiano Matarrazo, com os olhos tímidos e a certeza de que “o dinheiro compra tudo, até mesmo a aceitação das pessoas.”. “A vida em rosa” não é a música dos gays da Baixada, das áreas mais pobres, das zonais rurais, onde a história de vida nem sempre tem um final feliz. A questão da homossexualidade e o fator econômico é como compôs Chico Buarque “É pau. É pedra. É fim de linha. É lenha. É fogo. É foda.”.

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